Prova de inteligência
Setenta estudantes de 21 países participam na capital baiana da IX Olimpíada Ibero-Americana de Física
Daniel Freitas

Estudantes fazem provas teóricas e práticas sobre a aplicação da física na vida cotidiana *Foto:Antonio Saturnino

Os conhecimentos em física, uma das disciplinas mais complexas do ensino médio, viraram modalidade olímpica. Até amanhã, 70 estudantes de 21 países (19 da América Latina, Portugal e Espanha) participam da IX Olimpíada Ibero-Americana de Física, realizada no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em Ondina. Todos são alunos do 3º ano do ensino médio, na faixa etária dos 16 aos 18 anos, que se classificaram em olimpíadas nacionais, em seus próprios países. Quatro são brasileiros: Guilherme Salermo, de Goiás, e os paulistas Vander Martins, Ricardo Mizoguchi e Jeferson Fonlim Tsai. Não há nenhum baiano na lista. O campeonato consiste em provas teóricas e práticas sobre a aplicação da física na vida cotidiana. Como toda olimpíada que se preza, aqueles que obtiverem as melhores pontuações serão contemplados com medalhas de ouro, prata e bronze.

As provas teóricas já aconteceram na terça-feira e os alunos se submeteram à avaliação prática durante toda a manhã de ontem, concentrados em quatro salas, sem conversar com ninguém. Como é possível imaginar, é preciso gostar muito de física para parti-cipar. Só para citar alguns exemplos, os temas das provas práticas em duas salas eram Medida da viscosidade - Lei de Stokes (que diz que qualquer corpo que se move num fluido fica sujeito a uma força de resistência) e Interferometria e polarização, um experimento realizado à base de um aparelho denominado interferômetro, criado pelo estudioso Michelson no final do século XIX com o objetivo de ver se a velocidade da luz mudava com os movimentos da Terra.

Complicado? Não para os meninos e muito menos para a professora de física da Universidade de São Paulo (USP), Renata Funchal. "Muita gente não gosta de física porque não percebe o que é a física de fato. É preciso introduzir experimentos práticos na sala de aula para estimular o gosto dos alunos pela matéria", acredita a professora. Sua opinião é compartilhada pelo líder da equipe brasileira, o professor Eucylides Marega. "Nas escolas, o ensino da física é totalmente voltado para o vestibular. Talvez seja por isso que os brasileiros tenham certa dificuldade nas olimpíadas. É preciso oferecer uma visão mais ampla da física moderna, valorizando as suas relações com o dia-a-dia", diz ele, confiante no potencial nos meninos do Brasil.

Hoje, os estudantes deixam os princípios da física um pouco de lado e fazem um passeio de barco pela Baía de Todos os Santos, enquanto os professores participam de um workshop para discutir o ensino da física na América Latina. Amanhã, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Eduardo Valadares, comanda o show Física divertida, com demonstrações práticas de fenômenos físicos. Em seguida, após a correção das provas por um júri internacional formado pelos professores dos países participantes, a premiação dos vencedores acontece às 19h, no auditório do Grande Hotel da Barra.

O país que mais ganhou medalhas na Olimpíada Ibero-Americana de Física foi Cuba, que já acumula um total de 15 de ouro. O segundo lugar está com a Espanha, com oito medalhas. É a primeira vez que o Brasil sedia a olimpíada. O ano de 2005, inclusive, foi declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Ano Internacional da Física, em alusão aos cem anos da descoberta da teoria da relatividade de Einstein. No país, o evento é promovido pela Sociedade Brasileira de Física, com o apoio do Instituto de Física da Ufba, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Federação Latino-Americana de Sociedades de Física (Felasofi).

*Jovens aproveitam a cidade

As avaliações vêm sendo consideradas difíceis pelos estudantes, inclusive pela equipe do Equador, formada pelos jovens Andrés John Silva, Andrés Anibal Callegos e Ricardo Astudillo, todos de 17 anos. Outros nem tiveram tempo de relaxar antes de se submeter ao exame, como Pedro Estupiñan, da Venezuela, que veio direto do aeroporto para fazer a prova, com a mala na mão. Enquanto isso, os costa-riquenhos Bryant Esteban Canales, 17 anos, Camilo Rojas, 16, Jorge Quesada, 17, e Daniel Lopez, 17, podem até ter achado a prova difícil, mas não deixaram de aproveitar. A trupe chegou a Salvador na tarde do último sábado e trataram logo de conhecer os pontos turísticos da cidade, como o Cristo e o Farol da Barra.

Os meninos da equipe do Panamá também aproveitaram que o hotel fica perto do mar e não perderam tempo. Na capital baiana desde domingo, Punneet Anil, 17 anos, José Fong, 18, Alexandre Neblett, 17, e Manuel De La Hoz, 17, já conheceram a Praia do Porto da Barra e fizeram uma caminhada até o farol. A mesma sorte tiveram a equipe cubana formada por Daniel Hernández, 17 anos, Jeandy Rodrigues Dias, 18, José Molint Berenguer, 17, e Hermis Torres, 18. Foi a primeira vez que eles deixaram o seu país de origem e, após três vôos e mais de dez horas de viagem, acharam que as praias de Salvador lembram Havana. José Molint Berenguer, inclusive, já entrou no clima baiano e está usando dois colares típicos do estado.

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